O ministro das Relações Exteriores de Singapura, Vivian Balakrishnan, disse que, se houver uma guerra entre China e Estados Unidos no Pacífico, “o que se vê no Estreito de Ormuz será um ensaio”. A declaração foi feita na quarta-feira (22) durante o evento CONVERGE LIVE, da CNBC, em Singapura.
Balakrishnan respondeu a uma pergunta sobre se o país enfrenta pressão de Washington e Pequim para escolher um lado. Ele afirmou que Singapura tem relações com ambas as nações e está em posição única para aproveitar os acontecimentos nos Estados Unidos e na China.
Os EUA são o maior investidor estrangeiro em Singapura, com cerca de 6 mil empresas americanas instaladas no país. Segundo o Escritório do Representante de Comércio dos EUA, Singapura tem um déficit comercial de aproximadamente US$ 3,6 bilhões com Washington. Já a China é o maior parceiro comercial de Singapura, e Singapura é o maior investidor estrangeiro na China.
O ministro afirmou que Singapura “se recusará a escolher” entre um e outro. “A forma como conduzimos nossos assuntos é avaliar o que é do interesse nacional de longo prazo de Singapura e, se eu tiver que dizer não a Washington, Pequim ou qualquer outro, não hesitamos”, declarou. “Agimos de acordo com nosso próprio interesse nacional de longo prazo. Seremos úteis, mas não seremos usados”, acrescentou.
Balakrishnan também disse que o conflito no Oriente Médio mostrou que “pontos de estrangulamento são importantes”. Ele lembrou que Singapura está situada em uma das rotas comerciais mais críticas do mundo: o Estreito de Malaca. Em seu ponto mais estreito, o Estreito de Malaca tem duas milhas náuticas, contra 21 milhas náuticas do Estreito de Ormuz.
O ministro foi questionado se as ações do Irã, que tenta cobrar pedágios de navios que passam pelo Estreito de Ormuz, levariam outros países a fazer o mesmo em pontos como o Estreito de Malaca. Em março, a mídia estatal iraniana informou que Teerã preparava uma legislação para impor taxas a embarcações na região.
Balakrishnan disse que esse cenário seria um risco, mas que os países vizinhos ao Estreito de Malaca – Singapura, Malásia e Indonésia – têm interesse estratégico em mantê-lo aberto e não cobrar pedágios. “Em relação aos Estados Unidos e à China, dissemos a ambos que operamos com base na UNCLOS“, afirmou, referindo-se à Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. O artigo 44 da UNCLOS determina que “os Estados ribeirinhos dos estreitos não devem impedir o trânsito… Não haverá suspensão do direito de passagem em trânsito”.
“O direito de passagem em trânsito é garantido para todos. Não participaremos de nenhuma tentativa de fechar, interditar ou impor pedágios em nossa vizinhança”, disse Balakrishnan.
Em um momento em que a crise no Oriente Médio, a guerra na Ucrânia e as tarifas dos EUA geram desconfiança entre as nações, Balakrishnan destacou a importância de construir confiança. “Confiança é basicamente uma forma de reduzir custos de transação. Ser previsível, monótono, confiável tem valor real.”
As declarações foram feitas após o discurso do vice-primeiro-ministro de Singapura, Gan Kim Yong, que disse: “A confiança não pode mais ser presumida, precisa ser construída e fortalecida.” Gan afirmou que Singapura já é um centro financeiro importante e que o próximo passo será criar um ecossistema mais amplo para serviços baseados em confiança, incluindo gestão de riscos, segurança cibernética e governança de IA.
