Pela primeira vez na história, o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) não conta simultaneamente com presidente e superintendente-geral devido ao impasse político entre o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o Senado, que travou o envio de indicações de autoridades para agências e órgãos reguladores.
Responsável por analisar fusões e aquisições bilionárias, além de processos administrativos relacionados a cartéis ou condutas de big techs, o órgão de defesa da concorrência é hoje comandado por um presidente interino, enquanto a área técnica é chefiada por um superintendente-adjunto. Com processos relevantes em tramitação, especialistas e representantes de empresas temem impacto no andamento dos casos.
No dia 25 de junho, chegou ao fim o mandato do ex-superintendente-geral Alexandre Barreto. Cabe à área deliberar sobre a abertura de processos contra empresas, conduzir investigações e dar aval prévio a operações econômicas bilionárias. Em 14 de julho, também acaba o mandato do procurador-chefe do Cade, André Freire, servidor de carreira da AGU (Advocacia-Geral da União).
Atualmente, processos bilionários tramitam no Cade. A área técnica analisa a fusão internacional entre Paramount e Warner, operação que criará um dos maiores grupos globais de mídia e entretenimento, além de conduzir processos contra big techs e uma investigação sobre suposta coordenação de preços entre companhias aéreas. O tribunal tem na fila a análise da operação internacional entre a Subsea7 e Saipem, líderes globais em serviços de engenharia offshore.
Desde outubro de 2025, após o fim do mandato do ex-presidente Alexandre Cordeiro, o órgão é comandado interinamente. O atual presidente, o conselheiro Diogo Thomson de Andrade, já é o segundo interino a ocupar a função. Para todos esses cargos, cabe ao presidente da República fazer a indicação, sujeita à sabatina e aprovação do Senado. A rejeição a Jorge Messias para o STF (Supremo Tribunal Federal), somada ao agravamento da crise entre Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), criou uma incerteza sobre o comando do Cade.
A Superintendência-Geral está sendo comandada desde 26 de junho por Felipe Roquete, técnico do órgão que era adjunto de Alexandre Barreto. O mais cotado para a presidência do Cade é o atual conselheiro Carlos Jacques. Para a superintendência, o mais cotado é o atual presidente-interino Diogo Thomson. Caso essas indicações se concretizem, o governo poderá escolher quatro membros para o Tribunal do Cade, além de preencher a vacância da procuradoria, totalizando cinco indicações.
Na avaliação de Eric Jasper, advogado especializado em Direito Econômico, a situação no Tribunal do Cade pode ameaçar o ritmo de julgamento dos processos. Ele destacou que impedimentos do presidente interino podem gerar suspensões pontuais. Juliana Domingues, ex-procuradora-chefe do Cade, alertou que a sucessão de vagas na cúpula do órgão aumenta o risco de paralisação e de demora na análise de casos, além de reduzir a segurança jurídica.
